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Bolsa de valores: prolongamento do conflito mantém abril sob forte volatilidade
Especialistas apontam impactos no petróleo, inflação e juros, exigindo cautela de investidores
01/01/1970 00:00:00
O agravamento do conflito no Oriente Médio e a sinalização de uma escalada militar pelos Estados Unidos mudaram o humor dos mercados globais e devem impor um mês de abril marcado por incertezas, cautela e volatilidade. A avaliação é de especialistas do mercado financeiro, que apontam impactos diretos sobre o preço do petróleo, a inflação e as decisões de juros ao redor do mundo.
Segundo o sócio da Valor Investimentos, Higor Rabelo, o cenário atual é de “extrema cautela”, com investidores adotando uma postura de espera diante dos desdobramentos do conflito, que já entra no segundo mês. “O mercado esperava um tom mais brando e conciliador, com possibilidade de fim da guerra. Isso levou a uma alta das bolsas e à queda do petróleo nos últimos dias. Mas o discurso do presidente Donald Trump, na quarta-feira (1º), foi muito mais duro do que o esperado, indicando prolongamento do conflito e até novos ataques”, afirma.
A mudança de tom teve efeito imediato. O petróleo voltou a subir, aproximando-se de US$ 110 o barril, enquanto as bolsas internacionais passaram a operar em queda. Para Rabelo, a perspectiva de um conflito mais longo agrava dois riscos centrais para a economia global: inflação e desaceleração do crescimento. “Com o petróleo acima de US$ 100 por mais tempo, o impacto inflacionário aumenta significativamente. Isso reduz as chances de cortes de juros, especialmente nos Estados Unidos, e também pressiona o crescimento econômico global”, explica.
Com isso, a recomendação é fazer ajustes estratégicos nas carteiras, com o objetivo de reduzir a exposição a ativos mais sensíveis às oscilações das taxas de juros. Nesse contexto, investimentos em renda variável, como ações, demandam atenção redobrada.
O foco, de acordo com relatório da Monte Bravo, continua sendo o mesmo: setor financeiro, exportadoras de commodities (sobretudo de petróleo) e, principalmente, as prestadoras de serviços, também chamadas de “utilities”. “Diminuímos nossas exposições em construtoras. Embora vejamos valor nessas empresas no longo prazo, preferimos manter uma participação menor e mais segura por enquanto”, diz o analista da Monte Bravo, Bruno Benassi.
No mercado internacional, Benassi recomenda fundo de renda fixa americana que investe em títulos do governo. “O objetivo aqui é duplo: buscamos um ganho mais expressivo caso a economia americana sinalize uma recessão, mas também esperamos um retorno positivo, ainda que mais modesto, caso as tensões de guerra diminuam e o risco global seja reduzido”, diz.
Expectativa de corte na Selic é menor
No Brasil, Rabelo, da Valor Investimentos, comenta que o reflexo do conflito já é sentido na política monetária. A expectativa de cortes mais intensos na taxa básica de juros foi revista, e o cenário agora depende diretamente da evolução do conflito e de seus efeitos sobre os preços.
Benassi, da Monte Bravo, reforça que a volatilidade deve ser a principal marca do mês. Segundo ele, a falta de clareza sobre os próximos passos da guerra mantém o mercado em estado de ansiedade. “A gente deve conviver com essa volatilidade enquanto não houver uma sinalização mais clara sobre o fim do conflito ou sobre os próximos movimentos. O mercado reage muito rapidamente a qualquer notícia, seja positiva ou negativa”, afirma.
Ele destaca ainda que o impacto vai além do petróleo. Um eventual bloqueio ou instabilidade no Estreito de Ormuz pode afetar o fluxo global de energia e insumos estratégicos, como fertilizantes, alumínio, diesel e gás natural, com reflexos em cadeias produtivas ao redor do mundo. “Choques de energia acabam contaminando outros mercados, provocando essa ansiedade e incerteza. Se esses produtos deixam de ser escoados, há impactos na indústria, nos alimentos e na produção global, especialmente na Ásia”, observa.
O analista alerta ainda que, em um cenário mais extremo, com o petróleo alcançando patamares entre US$ 130 e US$ 140, cresce o risco de recessão global.
No campo doméstico, Benassi aponta que fatores políticos também devem influenciar os mercados ao longo de abril. Medidas econômicas voltadas ao aumento da popularidade do governo podem entrar no radar dos investidores, especialmente aquelas com impacto fiscal.
Além disso, a temporada de balanços corporativos, que começa nos Estados Unidos e chega ao Brasil no fim do mês, deve adicionar mais um componente de volatilidade.
Apesar do cenário adverso, os especialistas destacam que uma eventual reversão do conflito poderia rapidamente mudar o rumo dos mercados. “Se houver uma sinalização de fim da guerra, o petróleo tende a cair e o ambiente fica mais favorável, podendo abrir espaço para novos recordes nas bolsas”, afirma Benassi.
Até lá, a recomendação de Rabelo, da Valor Investimentos, é de prudência. “O momento é de cautela e de acompanhar dados e decisões dos bancos centrais. O mercado está, essencialmente, em modo de espera”, conclui.
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